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POESIA · 2027 — VINTE ANOS DEPOIS DA PRIMEIRA LIRA

A Lira dos 50 Anos

De Alexandre Lana Lins

Amigo, cheguei de novo,
Pra contar mais um cadim da minha vida,
Cinquenta anos nas costas, que trem danado!
E ainda tenho muita história escondida.

Ocês lembram daquele sujeito,
Que aos trinta se achava um sabichão?
Pois o tempo passou ligeiro,
E deixou uns cabelos brancos no cidadão!

Já fui menino sonhador,
Que conversava inté com as planta,
Hoje converso com o computador,
E o danado ainda me espanta!

Fui ator de muitas histórias,
Já fui moço, velho e até vilão,
Vivi tantas vidas nos palcos,
Que perdi as contas, meu irmão!

Fui jornalista, sim senhor,
Correndo atrás de notícia e informação,
Conheci as alegrias da profissão,
E também umas boas dor de cabeça, sô, que aflição!

Mas a vida, que é danada,
Resolveu me fazer professor,
Entrei na sala meio desconfiado,
E descobri mais um grande amor.

Ensinei verbo, poesia e redação,
Falei de Machado e de literatura,
Mas também aprendi com meus alunos,
Que ensinar é uma bela aventura.

Escrevi contos, romances e poesias,
Inventei mistérios e gente pra danar,
Tem menino que conversa com planta,
E personagem que insiste em me visitar!

Criei uma rádio, a tal da Lanns,
Que toca música de noite e de dia,
Tem notícia, prosa e saudade,
E muita canção pra alegrar a freguesia.

Inventei até uns personagens,
Pra fazer companhia ao povão,
Tem Lanninho, vovô e família,
Tudo morando na minha imaginação.

E a vida me deu uma filha,
A Mariana, meu presente maior,
Descobri que ser pai é uma aventura,
Que faz um homem querer ser melhor.

Minha mãe hoje mora na saudade,
E a vó Helena e Vovó Nininha também viajaram,
Mas quando lembro dos seus carinhos,
Parece que nenhuma das três me deixou.

Já chorei por coisa pequena,
E por umas grandes também,
Mas aprendi que até homem valente
Precisa de colo de alguém.

Teve dia que o mundo pesou,
E eu quis ficar no meu cantinho,
Mas depois de um tempo danado,
Lá fui eu procurar outro caminho.

O corpo já não é o mesmo,
Reclama de umas coisa sem razão,
Se antes eu virava a noite acordado,
Hoje uma boa cama é tentação!

O joelho às vezes dá um aviso,
A memória resolve descansar,
Entro num cômodo atrás de uma coisa,
E esqueço o que fui procurar!

Mas num pense que fiquei velho,
Nem venha me chamar de vovozão,
Ainda tenho um monte de projetos,
E um menino arteiro no coração!

Tem livro esperando história,
Tem rádio querendo programação,
Tem poesia batendo na porta,
E personagem pedindo atenção.

Nos meus trinta eu tinha pressa,
De viver, conquistar e vencer,
Hoje aprendi que umas coisas bonitas
Acontecem quando a gente deixa acontecer.

Já não quero abraçar o mundo,
Nem provar tudo que sou,
Quero viver meus bons momentos,
E agradecer o tanto que a vida me ensinou.

Tenho cinquenta anos, minha gente,
E ainda quero muito aprontar,
Se Deus me der mais cinquenta de presente,
Ocês vão ter história pra escutar!

E se eu chegar aos noventa,
Com bengala, óculos e violão,
Vou escrever a Lira dos cem anos,
Mesmo faltando dez pra ocasião!

Por isso, amigo, eu me despeço,
Mas num pense que a prosa terminou,
A vida ainda tem muito capítulo,
E esse escritor num se aposentou!

Se aos trinta eu gritava “Eita, vidão!”,
Aos cinquenta digo com mais emoção:
Que venham os próximos capítulos, sô!
Ainda tem muita vida neste coração!

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