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ESPAÇO DO AUTOR · REFLEXÃO

A Política do Bem

Por RC Lins

Encerradas as eleições presidenciais, que transcorreram em um ambiente de acirradas disputas e acentuadas divergências entre os candidatos, com expressiva participação do eleitorado, é preciso cuidar para que o convívio pessoal e as comunicações, tão essenciais à vida em sociedade, sejam pautados pela civilidade, racionalidade, coerência e responsabilidade.

Para que as divergências e as dúvidas sejam superadas pelo diálogo e pela comunicação proativa, buscando soluções e evitando eventuais conflitos, é necessário que se priorize o entendimento. Quando os conflitos forem inevitáveis e não puderem ser resolvidos consensualmente, caberá recorrer aos meios legais, garantindo-se a paz e a aplicação da justiça. Para tanto, é indispensável assegurar o equilíbrio e a equidade nos julgamentos, o que exige independência dos poderes instituídos, competência e isenção das autoridades, almejando-se alcançar soluções justas.

Deve-se lembrar que o bem comum é finalidade fundamental da política, diante da diversidade e das diferenças naturais, bem como das próprias dificuldades de se definir o que é o bem, como já ensinava o filósofo Aristóteles, na Grécia Antiga, ao refletir sobre a vida nas pólis, as cidades gregas. Trata-se, também, de finalidades inerentes à própria natureza e à condição humana: a construção de uma convivência pacífica, saudável e próspera.

Afinal, o homem é, como definiu Aristóteles, um “animal político” (zoon politikon), um ser social que precisa de seus semelhantes para bem viver e se realizar. A convivência humana é essencial e não admite divisões irracionais, muito menos polarizações extremistas. É preciso superar interesses individuais egoísticos e radicalismos.

Ressalta-se, ainda, a equidade como expressão e instrumento de justiça, princípio também associado ao pensamento do citado filósofo e sintetizado na tradicional expressão: “Tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades”. Ou seja, “tratar a todos com igual justiça, considerando as desigualdades na medida de suas diferenças”. Podemos concluir: considerando também suas reais necessidades.

A igualdade estabelece direitos; a equidade considera as diferenças; e a justiça procura harmonizá-las em benefício de todos, na busca do que é correto e legítimo. Esse entendimento também constitui uma das bases da boa política, entendida como arte mestra e dominante, voltada à busca do bem e à definição, juntamente com os cidadãos, daquilo que é bom para eles.

Tais ensinamentos fundamentais são atemporais, consolidadas pelo tempo e pela história. Mostram-nos como o pensamento grego influenciou a filosofia, a ciência e a política ocidentais, e como seus princípios ainda hoje prevalecem, podendo e precisando ser revistos, aprimorados e aplicados. O afastamento desses princípios essenciais desvirtua a política, corrompendo-a e transformando-a em politicagem medíocre e demagógica. E quem mais perde e sofre diretamente as consequências é o próprio povo.

Pelas minhas lembranças, já aprendíamos as bases destas lições no grupo escolar e nas primeiras séries do antigo curso ginasial. Alguns conterrâneos e contemporâneos certamente se lembrarão daqueles tempos e dos estudos no ex-Ginásio Leão XIII e Escola Normal Nossa Senhora do Carmo, na década de 1960, na cidade de Piranga-MG*.

Urge, portanto, agirmos com coerência e bom senso, com a razão e o coração, atitudes indispensáveis a uma boa convivência pacífica e à construção de um país melhor, progressista e que possa servir de exemplo para o mundo.

E será.

Obs *Aristóteles (384-322 a.C), ex-aluno de Platão, fundador da Academia de Atenas. Especialmente em “Ética a Nicômaco”,

*Piranga, cidade da zona da Mata, próxima de Ouro Preto, Conselheiro Lafaiete e Presidente Bernardes, ex-Calambau, onde nasci e cursei os primeiros anos do Grupo Escolar.

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