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O voto não pode nascer do rancor

Por Ícaro B. Almeida

Em tempos de eleições, parece que o Brasil se transforma em uma grande arena. Famílias discutem, amizades são abaladas e pessoas que antes conviviam harmoniosamente passam a se tratar como inimigas. Tudo porque pensam diferente quando o assunto é política.

Mas será que precisa ser assim?

A democracia pressupõe a existência de opiniões diferentes. É natural que um cidadão tenha preferência por determinado candidato, enquanto seu vizinho, amigo ou familiar pense de outra maneira. O problema começa quando a divergência deixa de ser uma discussão de ideias e se transforma em ofensa, intolerância e rancor.

A política deveria ser um espaço de debate sobre o futuro da sociedade, e não uma disputa para descobrir quem consegue humilhar mais o adversário.

Em meio a discursos inflamados, vídeos compartilhados nas redes sociais e discussões intermináveis, existe uma pergunta que merece atenção: quanto realmente sabemos sobre aqueles que pretendem governar o país?

Conhecemos suas propostas? Sabemos o que fizeram ao longo da vida pública? Procuramos informações sobre seus mandatos anteriores, suas decisões e seus compromissos? Ou nossas opiniões são formadas apenas por aquilo que recebemos nas redes sociais?

O passado de um candidato faz parte de sua trajetória. Sua atuação em cargos públicos, os projetos que apresentou, as decisões que tomou e os compromissos que assumiu são informações que podem ser consultadas e analisadas. Da mesma maneira, suas propostas para o futuro merecem ser conhecidas.

É importante distinguir uma promessa de campanha de uma medida efetivamente realizada. Um discurso pode anunciar intenções, mas a execução de políticas públicas depende de condições legais, administrativas, econômicas e políticas.

Também é necessário ter cuidado com as informações que circulam durante uma eleição. Uma notícia falsa, uma declaração retirada de contexto ou um vídeo manipulado podem prejudicar a compreensão dos acontecimentos. Por isso, verificar a origem de uma informação é parte fundamental do debate democrático.

O Tribunal Superior Eleitoral disponibiliza ferramentas públicas que permitem consultar dados das candidaturas, propostas de governo e informações sobre financiamento de campanhas. São recursos importantes para quem deseja conhecer melhor o processo eleitoral.

Discordar não é odiar. Questionar não é ofender. E respeitar uma opinião diferente não significa concordar com ela.

Talvez uma das maiores dificuldades da convivência política esteja justamente em compreender isso. Podemos discordar profundamente de alguém sem desrespeitar sua dignidade. Podemos defender nossas ideias sem transformar o outro em inimigo.

Nenhum candidato deveria ser tratado como uma figura acima de qualquer questionamento. Pessoas que ocupam ou pretendem ocupar cargos públicos estão sujeitas ao debate, à fiscalização e à cobrança da sociedade.

A política também não deveria ocupar um espaço tão absoluto em nossas relações pessoais a ponto de destruir vínculos construídos durante anos. Afinal, depois que as urnas são fechadas, continuamos sendo vizinhos, colegas de trabalho, amigos e familiares. Continuamos compartilhando os mesmos espaços e enfrentando muitos dos mesmos desafios cotidianos.

O voto é individual, mas seus efeitos alcançam toda a coletividade. Por isso, discutir eleições envolve muito mais do que defender nomes, partidos ou ideologias. Envolve conhecer propostas, compreender responsabilidades e acompanhar a atuação dos representantes eleitos.

A democracia não termina quando o resultado de uma eleição é anunciado. Ela continua no direito de perguntar, fiscalizar, discordar, participar e exigir transparência.

O rancor, por sua vez, costuma dificultar o diálogo. Quando estamos dominados pela raiva, corremos o risco de ouvir apenas aquilo que confirma nossas convicções e rejeitar qualquer informação que as contrarie.

Não precisamos pensar da mesma maneira para viver na mesma sociedade. O respeito às diferenças não elimina o debate político; ao contrário, permite que ele aconteça.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente quem venceu ou perdeu uma eleição, mas como estamos convivendo com nossas diferenças.

Porque uma eleição passa. A democracia, o respeito e a convivência precisam continuar.

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