Alexandre Lana LinsPALAVRAS · ARTE · EDUCAÇÃO← Meus textos
CRÔNICA · ACERVO LITERÁRIO

Os dias zero

Por Alexandre Lana Lins

Estou convencido de que, depois da virada do ano, deveriam existir dois dias fora do calendário. Os dias “zero”. Nesses dias todos deveriam ficar em casa, meditando, rezando, lendo bons livros, conversando com a família, ouvindo aquele CD que você não tirou do armário durante o ano todo. Nos dias “zero”, nenhum estabelecimento comercial abriria, as emissoras de TV e rádio estariam fora do ar, a internet ficaria desligada e não haveria carros no trânsito. Todos na garagem. Transporte público? Pra quê? Nesses dias estaríamos completamente desligados.

Durante esses dias, a oração seria a principal conselheira. Os únicos sons lá fora seriam o canto dos pássaros, o chamado das cigarras e os latidos e miados apaixonados. Dentro de nossas casas, compartilharíamos um parágrafo de um livro e os planos para o ano que estava nascendo, faríamos uma crítica às nossas ações do ano que passou e colocaríamos no papel as promessas para os próximos 365 dias.

Dançaríamos ao som daquela música prometida, tiraríamos um cochilo após o almoço, daríamos beijos nos amados e faríamos cócegas no filho querido. Seria proibido conversar sobre problemas, mas as soluções apareceriam no silêncio do dia. A conversa teria um limite de decibéis, o carinho estaria liberado e o sonho seria uma obrigação.

Quando o sol surgisse pela terceira vez após a virada do ano, o ano-novo começaria e, com ele, estaríamos mais confiantes, fortes, leves e prontos para viver os próximos dias. Afinal, durante os dias “zero”, fomos preenchidos com o amor sincero, a autocrítica necessária e a paz esquecida.

“O carinho estava liberado e o sonho uma obrigação.”
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